sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Capítulo 4 : Rosas brancas

"Que lindo , minha filha!"- Foi o que a mãe de Hannah disse a ela.
"Venha , vamos para o quarto."- Disse a mãe de Hannah a ela. A levando delicadamente em direção a escadaria que ficava no centro da sala. 
 Sala rústica, antiga e de madeira. Era o estilo daquele cômodo. Com o sol ainda claro la fora, não havia necessidade de luz. Mas em alguns locais pouco iluminados a luz estava ligada, dando-me um aconchego infinito. A lareira com cinzas que mostravam que fora acesa recentemente , ficava perto do sofá  bege de 3 lugares. Perto do sofá , uma poltrona aparentemente confortável e grande, bege também.  Um tapete no chão com estampa de vacas e cavalos. Uma estante encostada na parede ao lado da lareira. Estante grande , empoeirada e entupida de livros e conhecimentos. Era de madeira. Do outro lado da sala , uma mesa grande , de 6 lugares, também de madeira, onde estávamos. Um quadro de Nossa Senhora  pendurado na parede, embaixo do quadro , uma mesinha pequena de madeira branca com uma bíblia, uma vela acesa e imagens que simbolizavam facilmente o catolicismo da família.

Havia alguns vasos de plantas espalhado e postos nos cantos da sala . Adoro plantas, especialmente flores, mais especificamente rosas. Brancas, de preferência. Creio que adquiri esse gosto para rosas brancas pois uma vez, quando fui executar um serviço , foi em um navio , ainda me lembro , creio que foi em 1945... por aí , o navio de nome "Ron Rotler" carregava rosas brancas para os falecidos da segunda guerra mundial . Entrei naquele navio que iria aportar aqui no Brasil, apenas para terminar um trabalho . Um soldado que estava no navio , gravemente ferido , estava em seu leito de morte, fui lá apenas para fazer o meu trabalho , tirar a vida do soldado . Mas foi bom ver , em meio de tanta tragédia e desgraça , uma embarcação que trouxesse um pingo de felicidade e esperança aos doentes , machucados e nocauteados .

Saí dos meus pensamentos quando escutei a voz rude e forte do pai de Hannah . 
"E você , Felipe . O que pensa da vida?!" 
"Pai , me perdoe..."- Disse Felipe , chorando
"Peça perdão a sua irmã e a Deus , meu filho ! Estou muito cansado para dar um surra em você , como queria. Mas vou tomar banho e dar uma cochilada , não me irrite mais ! Vou pedir para sua mãe preparar a galinha para o jantar."- Disse o pai , subindo as escadas e deixando Felipe e eu a sós.

Capítulo 3 : Pássaro na janela

Logo apareceu-me serviço e fui embora. Voltei assim que terminei o serviço , queria ver os cavalos. Era geralmente pelas duas da tarde em que Felipe soltava os cavalos e eles corriam livremente pelo campo esverdeado. Mas dessa vez ele ainda não havia deixado os cavalos livres. Escutei um barulho dentro da casa e fui ver o que era. Encostei-me na janela para espiar.

Estavam na sala. Hannah e Felipe. A mesma senhora que foi "salvar" Hannah ,estava em pé e falava algo que não se dava para ouvir pois o vidro impossibilitava a passagem de som. Pelo que me parecia , a mãe de Hannah estava furiosa , apontando o dedo no rosto de Felipe e brigando. Hannah , ao canto da mesa, chorava.

Passos atrás de mim . Viro-me e olho o pai de Hannah entrando , suado e cansado com uma galinha morta sendo segurada pela patas ensanguentadas. Não falei ? Os seres humanos são seres nojentos e sem dó nem piedade. Bem , com certeza aquela morte foi feita por um dos meus auxiliares, afinal , eu sou só uma !  O pai de Hannah entra na casa com passos pesados , aproveito e entro junto com ele.

"O que é isso aqui ?" - Pergunta ele , colocando a galinha na mesa.
"O Felipe deixou a Hannah sozinha no campo, mesmo sabendo que ela é autista !"- Disse a mãe , apontando pra Felipe. Hannah chorava baixinho, cheguei perto dela. Sentia o batimento do coração dela devagar. Então , ela de repete virou-se para mim , parecia que ela podia me sentir. Seus olhos azuis encaravam minha face vazia.
"O que ? Felipe , você está com um parafuso a menos nessa sua cabeça ?! Você que a Hannah vive no mundo dela , se alguém que ela não conhece chega perto , ela entra em pânico! Você sabe disso !"- Disse , o pai do menino , com fúria visível nos olhos.

Hannah continuava a encarar o "invisível" , será que ela podia me ver? Então , ela apontou para a janela  e disse :
"Um pássaro! Olhe , mamãe , um pássaro!" - Ela disse, rindo e deixando as últimas gotas de água caírem e molharem a mesa.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Capítulo 2 : Medo de gente

Fiquei a observando , estava tão tensa e feliz ao mesmo tempo. Hannah estava fixando seu olhar diretamente no cavalo grande , marrom e bonito de nome Lion. Suas feições era rudes, mas me traziam , de alguma forma , conforto. Os olhos azuis lembravam-me chuva , chuva refrescante , chuva que ,nunca de fato ,senti .

Sentia vontade tocar em seus cabelos , mas não podia , não conseguia. Fiquei só olhando ela. Então , ouvi um estrondo assustador , mas era apenas a porta se abrindo e batendo com força na parede. Hannah também se assustou , e em um pulo olhou para conferir quem estava ali. Era um senhor encharcado de água acompanhado com o irmão de Hannah , igualmente molhado.
"Venha , Hannah ! Venha embora para casa, agora!"- Disse o homem se aproximando. Quando pude vê-lo melhor , percebi que era o mesmo homem que vivia trabalhando nos pastos e nos campos daquela fazenda, provavelmente o patriarca da família.
"Mas , pai..."- Hannah disse, tristonha.
"Nada de 'mas' , venha logo para casa!"- Disse o homem , e Hannah obedeceu. Felipe estava calado olhando para Hannah.

Os três saíram do estábulo , deixando-o completamente escuro ( pois haviam desligado as luzes), e me deixando a sós , com os cavalos. Pensei em ficar um pouco mais , mas recebi um chamado , mais um serviço, que ótimo. Era um chamado vindo de não tão longe dali. Uma mulher perdera a vida em um parto.  Mas a criança , que estava viva, era o sinal  e a mais suprema prova que eu não atuo sozinha . Olha , eu até sou importante ! Sem mim , a vida jamais se renovaria.

No dia seguinte , me deu uma vontade de ir conferir se Hannah ( custei a aprender seu nome , afinal , ela gostava de cavalos! ) tinha ido aprender a cavalgar . Mas quando cheguei em frente a fazenda, não encontrei nem sinal de ninguém da família de Hannah. Andei um pouco mais direcionando meus olhares a qualquer pista ou rastro de alguém que tivesse ligação a Hannah. Até que vi Felipe vestido com um fardamento escolar e Hannah , com roupas casuais chorando ao pé de Felipe. Me aproximei deles.

"Por favor ! Me ensine a ler ! Por favor !"- Dizia Hannah em meio a soluços.
"Hannah , você é doente, não vai aprender nunca a ler. Me solte , sua louca !"- Disse Felipe , aquelas palavras deveriam machucar tanto o pobre coração de Hannah.
"Eu não sou doente !" - Falou ela , afoita.
"Hannah , tenho mais o que fazer!"- Disse Felipe , indo embora para dentro de casa.
Hannah sentou-se ao em baixo de uma árvore e começou a chorar. Me senti altamente triste pela infelicidade dela. De repente, Hannah , levanta a cabeça , seu olhar assustado rodeia o campo vazio em busca de algo que me era desconhecido.  Distante vinha um grupo de jovens risonhos em direção a Hannah. Conseguia perceber que ela estava com medo , só não sabia o motivo.

Os jovens chegaram mais perto e Hannah os olhou com medo , então , abaixou a cabeça. Vi que um dos rapazes ia dizer algo a Hannah , mas uma mulher chegou antes disso.
"Minha filha ! Minha filha!" - Disse quem parecia ser a mãe de Hannah. Mas Hannah permaneceu do mesmo jeito .
"Minha querida, sou eu , sua mãe!"- Disse a senhora. Então Hannah olhou para mãe , desconfiada, e correu para seus braços. A mãe de Hannah direcionou um olhar raivoso para os jovens e foi indo embora em direção para a  sua casa.

Capítulo 1 : Hannah também gosta de cavalos.

Era uma final de tarde chuvosa. Já estava escurecendo e a lua estava visível entre as nuvens carregadas de chuva. Estava vendo os cavalos no estábulo e descansando. Ouvi um barulho da porta de abrir e entrar um garoto magro e alto, com seus 16 anos , acompanhado com uma menina baixa ,com idade que desconheço. Não estava ali por acaso , tinha acabado de completar um serviço mais adiante. Tirado a vida de um pobre fazendeiro das redondezas. Passei ali pois já tinha visto belos cavalos cavalgarem por aquelas bandas.

Já tinha visto ele menino cuidando de ovelhas , naquela mesma fazenda. Mas nunca havia visto aquela garota . Suas feições denunciaram que ela sofria de alguma doença genética . Conhecia muito que tipo de doença era aquela , síndrome de down. Não me lembro ao certo desde quando eu comecei a trabalhar nesse ramo de mortes, sei que faz muito tempo. Tenho alguns auxiliares , mas na maioria das vezes, eu que faço tudo por aqui.

O menino caminhou até onde eu estava , mesmo sabendo que ninguém podia me ver, ficava sempre tensa quando chegavam tão perto de mim . Ele a abriu a porteira e retirou um cavalo marrom e bonito , o que eu mais gostava de olhar.
"Anda, sobe ."- Disse o menino com frieza a garota.
"Mas... como sobe?"- Disse a menina olhando para baixo.
"Vem cá , eu te ponho em cima." - A garota de aproximou do rapaz e ele a colocou em cima do cavalo. Fiquei observando atentamente. Não tinha muita experiência com cavalos , mas sempre que eu os vias, e alguém cavalgava neles , colocavam a sela nos cavalos. E o rapaz não havia colocado sela no cavalo.
"Onde seguro?"- Disse a menina após subir .
"Canto algum , Hannah. Você não vai andar de cavalo , já lhe disse. Não insista. "- Disse o menino , sem paciência.
"Então por que me trouxe até aqui ?"- Perguntou a menina , desanimada.
"Porque você insistiu em ver o Lion! " - Ele falou.
"Mas eu quero cavalgar entre os campos  , que nem você , Felipe."- Disse ela , acariciando o cavalo.
"Hannah , você não vai cavalgar. Ande, saia daí de cima !"- Falou ele , agarrando na garota para tirá-la do cavalo.
"Não , eu quero ficar aqui com o Lion!"- Falou Hannah , raivosa - "Me solte!"
"Hannah !"- Disse Felipe , já colocando a menina no chão.
"Eu não saio daqui até cavalgar com o Lion." - Disse ela , batendo o pé no chão.
"Está chovendo ! E você não é habilitada a andar de cavalos! Vamos embora já!"- Disse Felipe , com o dedo no rosto de Hannah.
"Amanhã ." - Disse ela.
"Amanhã o que ?!"- Falou ele , já bastante irritado.
"Amanhã , quando o sol estiver quente , você me ensina a andar de cavalos?"- Falou ela , mexendo no cabelo.
"Veremos isso. Agora vamos embora!"-Disse ele.
"Depois."- Disse ela.
"Ah , não ligo se nossos pais me derem uma surra por te deixar aqui. Vou embora!"- Felipe saiu e nós deixou a sós.


Prefácio

Prefácio

Existem duas coisas que me deixa completamente extasiada ; Cavalos e pessoas. Mas sempre gosto de ressaltar que acho as pessoas repugnantes , e os cavalos são criaturas adoráveis. Vejo as pessoas matando umas as outras, em uma guerra de poder contínua . Já os cavalos são meigos , não se importam com a riqueza, são amigos . Gostam de correr de um lado para outro deixando sua crina balançar ao vento. É uma pena ter que tirar a vida de criaturas tão lindas.

Sempre os observando quando posso . Mesmo meu tempo sendo extremamente curto , dou sempre um jeito na rotina para ver os cavalos cavalgando pelos campos e fazendas. Enquanto as pessoas , bem  eu sempre as vejo , pois também trabalho com elas. Ah , claro , as apresentações , meu nome é Dona Morte, mas também sou conhecida como Tragédia , Desgraça , Acidente , entre outros nomes que sugerem a mesma coisa ; morte.

Muitos dizem que não tenho piedade de ninguém , o que é uma mentira. Há pessoas que são tão boas e que eu sei que teriam um belo futuro pela frente... mas são as regras do jogo . Houve uma vez que desobedeci a regra principal , tive piedade do humano pecador. Ainda me lembro do nome do humano , era uma garota, Hannah . Lembro-me bem do nome dela e de suas feições, pois retornei a encontrá-la várias vezes.