Logo apareceu-me serviço e fui embora. Voltei assim que terminei o serviço , queria ver os cavalos. Era geralmente pelas duas da tarde em que Felipe soltava os cavalos e eles corriam livremente pelo campo esverdeado. Mas dessa vez ele ainda não havia deixado os cavalos livres. Escutei um barulho dentro da casa e fui ver o que era. Encostei-me na janela para espiar.
Estavam na sala. Hannah e Felipe. A mesma senhora que foi "salvar" Hannah ,estava em pé e falava algo que não se dava para ouvir pois o vidro impossibilitava a passagem de som. Pelo que me parecia , a mãe de Hannah estava furiosa , apontando o dedo no rosto de Felipe e brigando. Hannah , ao canto da mesa, chorava.
Passos atrás de mim . Viro-me e olho o pai de Hannah entrando , suado e cansado com uma galinha morta sendo segurada pela patas ensanguentadas. Não falei ? Os seres humanos são seres nojentos e sem dó nem piedade. Bem , com certeza aquela morte foi feita por um dos meus auxiliares, afinal , eu sou só uma ! O pai de Hannah entra na casa com passos pesados , aproveito e entro junto com ele.
"O que é isso aqui ?" - Pergunta ele , colocando a galinha na mesa.
"O Felipe deixou a Hannah sozinha no campo, mesmo sabendo que ela é autista !"- Disse a mãe , apontando pra Felipe. Hannah chorava baixinho, cheguei perto dela. Sentia o batimento do coração dela devagar. Então , ela de repete virou-se para mim , parecia que ela podia me sentir. Seus olhos azuis encaravam minha face vazia.
"O que ? Felipe , você está com um parafuso a menos nessa sua cabeça ?! Você que a Hannah vive no mundo dela , se alguém que ela não conhece chega perto , ela entra em pânico! Você sabe disso !"- Disse , o pai do menino , com fúria visível nos olhos.
Hannah continuava a encarar o "invisível" , será que ela podia me ver? Então , ela apontou para a janela e disse :
"Um pássaro! Olhe , mamãe , um pássaro!" - Ela disse, rindo e deixando as últimas gotas de água caírem e molharem a mesa.
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